Dia Internacional da Falsidade

Por mais bizarro que pareça, eu sou contra a existência de um “dia internacional da mulher”. Basicamente, porque 90% das pessoas desconhece o real motivo de existir um dia desses – ou conhece a versão suavizada do motivo, como eu li no jornal outro dia “O dia internacional da mulher existe porque em março de 1911 140 mulheres morreram num incêndio numa fábrica”. Isso é “versão suavizada”. Em março de 1911, 140 mulheres que estavam em greve dentro de uma fábrica exigindo as mesmas condições de trabalho dadas aos homens, foram trancadas dentro da fábrica, que foi deliberadamente icinerada com as mulheres lá dentro, como castigo. Obviamente, há uma diferença monstruosa entra “morrer num incêndio” e “ser queimada viva deliberadamente por ousar exigir as mesmas condições de trabalho que os seus colegas homens tinham”. Transformar uma morte criminosa, injusta e sádica num acidente é o mesmo mecanismo de suavização dos problemas que perpetua o preconceito contra as mulheres. E criar um dia no calendário para recompensá-las é querer que aceitem uma flor murcha de um real para compensar o fato de serem diariamente discriminadas nas mais variadas situações – é o cúmulo da suavização dos problemas.

É público e notório que mulheres ganham menos para desempenhar as mesmas funções que os homens, que são maioria entre os desempregados e que chegam menos a cargos de alto escalão nas empresas. Além disso, experimente perguntar pra diversos homens o que eles acham de mulheres que tomam a iniciativa e/ou já tenham tido muitos parceiros. Infelizmente, a maioria responde coisas do tipo “ah, mulher que faz isso é porque está necessitada / ah, é uma vagabunda, imagina se vou sair com uma mulher que todo mundo já pegou?”. E é esse bando de manés que depois quer dar florzinha murcha pelo Dia Internacional da Mulher. E querem que eu aceite sorrindo? Por isso sou contra esses dias homenageantes para as minorias – soam como suborno para fazermos vista grossa ao preconceito. Dia da Consciência Negra não serve pra nada se continuam associando negro a ladrão, Dia Internacional da Mulher não serve pra nada se continuam nos achando inferiores aos homens. Eu não quero florzinha murcha de ninguém, eu quero ganhar salário compatível com o dos outros homens na minha carreira e não ser preterida em entrevistas de emprego. Quero poder ter o número de parceiros que eu desejar ao longo da vida sem ser chamada de vagabunda, e não receber mensagenzinhas de parabéns pelo ICQ.

Claro que eu sei que direitos iguais vêm com deveres iguais. Exatamente por isso eu condeno essas mulherzinhas que acham que o homem deve pagar a conta porque é “cavalheirismo”, que querem que o parceiro não seja ciumento mas se reservam o direito de dar escândalo quando o vêem com uma amiga, que reclamam direitos iguais no trabalho, mas usa sua TPM como desculpa para chegar atrasada ou ser mal educada. Eu odiava minha TPM e por isso mesmo comecei a tomar pílula contínua, resolvendo meus problemas de humor – sim, isso existe, não é novidade e a lista de benefícios só aumenta (diminui a reincidência de endometriose, melhora displasia mamária, e pesquisas mais recentes indicam até redução da incidência de câncer de mama e de ovário) e recomendo que você peça a seu ginecologista para pesquisar, caso ele não conheça – e faço questão de rachar a conta com meu namorado e não sou ciumenta, porque não tenho saco pra ataques de ciúmes e não sou insegura o bastante para achar que vou perder meu namorado para qualquer uma que lhe apareça pela frente. Mas a maioria das mulheres que supostamente quer direitos iguais na verdade defende direitos iguais e deveres diferentes – o que é muito cômodo, mas nem um pouco justo.

Dessa forma, se o tal Dia Internacional da Mulher servir pra alguma coisa, que seja pra acordar as pessoas para o que elas devem fazer durante os próximos 364 dias, e não para ser usado como compensação barata pelos problemas causados. Antes de desejar feliz Dia internacional da Mulher a alguém, pense nas suas atitudes para com elas no dia-a-dia, faça um mea culpa e mude. Isso vale mais que qualquer florzinha pra todas nós, pode apostar.

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9 Comments to “Dia Internacional da Falsidade”

  1. zander catta preta says:

    É isso aí, Nat!!! Mas continuo preferindo pagar a conta para a dama. Acho mais elegante, sabe, como usar bengala e cartola.

  2. Hã, só umas observações:

    1-) Estudos nos EUA tem provado que as diferenças salariais entre mulheres e homens existem porque as primeiras tendem a preferir jornadas de trabalho menores, profissões com menores graus de risco, entre outros fatores:

    http://www.lewrockwell.com/mcelroy/mcelroy62.html

    Não sei como seria no Brasil, mas deve ser situação semelhante. Ao menos as mulheres que eu conheço tendem a colocar a si próprias e a sua qualidade de vida acima da profissão, ao contrário dos homens, que não raro se escravizam pelo trabalho.

    Na verdade, isso ocorre porque a mulher é obrigada a cuidar da casa/filhos/marido ALÉM da sua carreira. Nosso dia tem 24 horas que nem o de vocês e trabalhamos fora e em casa. Se adotamos comportamento igual ao dos homens, somos massacradas pela família. É uma questão socio-cultural. E aí, por causa desse tipo de coisa, mesmo as mulheres workaholics não casadas e sem filhos acabam tendo seu salário “compatibilizado” com o das que não se dedicam tanto assim. E daí temos um ciclo que se repete ad infinitum.

    2-) Ao menos entre os homens mais jovens, não conheço ninguém que reclame da mulher tomar a iniciativa. Tem alguns que reclamam daquelas que tomam a iniciativa para todo mundo, atiram para todos os lados e são meio que escancaradas, ou aqueles que falam merda de mulheres com muito relacionamentos.

    Não julgue todos por uma minoria. Olhe pra você: é de uma elite restritíssima com acesso à informação e que sabe o que fazer com ela, assim como deve ser a maior parte dos homens que você conhece. De modo geral, especialmente entre os grupos mais anencéfalos (playboys e correlatos) eles adoram que a mulher tome a iniciativa, mas jamais se dispõem a namorar com ela porque “é uma vagabunda” – mulher séria é aquela que faz joguinho hipócrita. Não que isso faça algum sentido.

    Mas é questão de opção já que homem que trata mulher com respeito existe.

    Claro, mas, infelizmente, eles ainda não são a maioria, e as mulheres ainda são muito inseguras para simplesmente chutar esse tipo de mané para a selva, de onde não deveriam ter saído. Acho que vou lançar uma campanha: “Diga não à zoofilia: não fique com chimpanzés”

  3. oito says:

    mulheres… quem consegue agradá-las?

  4. Mulheres ? Dia Internacional ? Como é que é ?!

  5. Cara.. agora sou sua fã. Sério, vc falou muita coisa do que eu tentei expressar para um amigo meu mas não tenho certeza de que ele entendeu.

    Fora o exemplo dos negros, é como o dia das crianças… elas celebram e a gente celebra por elas por que um dia elas vão deixar de ser crianças. Não existe um “dia do adulto”. Já que adulto é o ‘normal’ e criança é uma ‘condição’.

    Assim, subentende-se que Negros, Mulheres, “minorias” (sabemos que no Brasil há mais mulheres que homens) são uma ‘condição’, e não há dias especiais dedicados para a maioria, por isso. Basicamente.

    Da mesma forma que eu odeio quando fazem organizações do tipo “apoio juridico a mulher” ou algo do tipo. Se queremos tratamento igual, não devemos separar as coisas. Ou colocar exclusividades como dias dedicados ou preconceitos de qualquer tipo..

    Eu sou obrigada a depilar as axilas quando uso alguma roupa sem mangas por que se eu não o fizer enchem o saco e olham torto. Homem pode ser fedido que é feito pra ser. Se querem que eu seja toda fresca e cheirosa, quero eles assim também! Bah.. Saí do tema.

    Mas eh.

  6. Heloisa says:

    Teu post veio num dia PERFEITO pra mim.
    Vou visitar aqui sempre.
    Obrigada,
    Helô.

  7. Ian says:

    Nossa… esse seu texto praticamente resume tudo o que ando pensando ultimamente acerca da mulher no século XIX! Realmente: a maioria das mulheres pensam em ter todos os direitos que os homens têm, porém, esquecem das responsabilidades que naturalmente vêm com isso! Curti teu blog, sério mesmo! Dá uma passada lá no meu também!
    Abraços!

  8. marcia says:

    Adorei inclusive vou usar de algumas de suas palavras p/ um trabalho no colégio e gostaria q todos as mulheres pensassem como nós…bjos!

  9. [...] mais? leiam: ISSO. [...]