Uma das coisas que me chamou a atenção aqui no Canadá foi a simplicidade do canadense médio, se você comparar com o brasileiro médio de uma cidade do mesmo porte. De modo geral, o canadense é mais bem pago, tem mais benefícios (sistema de saúde público que funciona, escola pública decente), mais segurança, ou seja, se preocupa com menos coisas e, portanto, acaba tendo mais dinheiro sobrando. Claro que compram besteiras. Mas existe muito menos a necessidade de comprar besteiras pra mostrar que “tá podendo”, uma coisa muito comum no Brasil.
Por exemplo, eu nunca, nunca vou me esquecer da Preta Gil dizendo pra quem quisesse ouvir que ia comprar o iPhone “G3″. Só porque podia. Ela não tinha a menor idéia de pra que o iPhone servia, se seria útil pra ela, do que se tratava, nem sequer sabia o nome direito. Mas ia comprar e estava anunciando pra todo mundo. É o retrato do brasileiro padrão: usa todo o dinheiro possível e imaginável para comprar o que não precisa para mostrar para os outros que pode. Quantas pessoas você conhece que querem um iPhone / Macbook / produto da moda e não sabem muito bem o que fazer com ele, poderiam usar algo que custa 1/10 do preço no lugar, e investir o resto do dinheiro em algo mais útil para si mesmos (uma viagem para outro país, aprender idiomas, tantas coisas) ? Existe essa geração de pessoas que compra gadgets caros e bonitinhos para passar tempo no reddit/facebook/twitter/pinterest.
Claro que existe esse tipo de pessoa retardada aqui também, mas é menos comum em centros urbanos. As pessoas se preocupam bastante em se informar como vão gastar o dinheiro, para não gastar dinheiro à toa. Existe uma cultura (que acho muito válida) de que dinheiro é uma coisa séria – os jovens começam a contribuir para as finanças da casa com summer jobs em McDonalds e KFCs da vida durante as férias escolares, não importa quanto dinheiro sua família tenha. A maior parte usa transporte público pra ir trabalhar, e muita gente vai de bicicleta. As pessoas não ligam para “coisas de marca”, como os nossos vizinhos dos EUA, o importante é que seja duradouro e barato. Ninguém está interessado em gastar 200 pratas em um produto que vai ser trocado ano que vem. Se ele durar cinco anos, aí é outra história.
Observem como isso é TÃO diferente da cultura de não dar valor ao dinheiro de um país tão POBRE quanto o Brasil. Porque, numa boa, “em desenvolvimento” é um eufemismo muito chato, e pro país crescer vocês têm que parar de se esconder atrás de eufemismos. A minha impressão é que o Brasil está tentando virar uma cópia dos EUA, e isso é assustador. Não façam isso, lá não deu muito certo.
O Brasil é um pais “em desenvolvimento” tanto quanto eu sou um bilionário “em enriquecimento”. :-\
Francamente, ninguém se importa. Coisa mais chata brasileiro que se muda para outro país e ao invés de se achar, fica mandando editos para os que ficaram dizendo que eles deveriam fazer isso ou aquilo.
Renata, tudo blz?
Eu tenho muito interesse em ir pro Canadá, pois já tive a experiência de morar na Itália, não é como aí, mas é um pouco melhor que aqui, no Brasil. Venho acompanhando seu blog e gostaria de me corresponder com vc via mail, se isso for possível, lógico.
Minha área de atuação é DBA Oracle e Admin de Servidor de Aplicação OAS e Weblogic, teria alguma possibilidade de conseguir ir?
Outra coisa é sobre aposentadoria, como é a daí?
Muito obrigado por tudo.
Jorge.
Levando-se em conta que eu penso exatamente assim, lamento a cada dia não conseguir juntar dinheiro e me mandar pro Canadá. As contas em SP não fecham: filha tá há um ano na fila de espera da creche pública e a particular é caríssima, eu pago o ANO da mensalidade do Gabriel no Rio com o valor de duas mensalidades de SP. Bota na escola pública, faltam professores, o currículo é ruim e volta e meia tem greve. E o SUS funciona apenas onde não é sucateado. Transporte público é caro e está em colapso. A cidade inteira trava na hora do rush, metrô quebra, ônibus lotado parado no engarrafamento… Um inferno. Para complicar, eu arrumo emprego em qualquer lugar mas o Rigues enquanto jornalista de tecnologia tem de viver em SP.