O fim de uma era
Existe um bairro aqui no Rio de Janeiro chamado Barra da Tijuca. Ele, durante muitos anos (eu diria uns 20 ou 30 - até no Asfalto Selvagem, de Nelson Rodrigues, existe uma referência a motel naquela região) foi conhecido pela enorme quantidade de motéis que abrigava. Havia até uma rua, chamada de Rua dos Motéis, que tinha esse nome por ter dezenas deles, um de cada lado. Quem chegava na Barra via um imenso cartaz “Sorria, você está na Barra” ao sair do Elevado do Joá e, à sua direita, várias construções com nomes exóticos. Quando eu era criança e a Barra era um lugar onde podia-se ir a uma praia mais vazia, eu passava por ali e nem desconfiava do que se tratavam aqueles letreiros coloridos, achava legal e tal. Tinha um, fora daquela rua, mais chique, que existe até hoje, chamado “Dunas”, eu jurava que era alguma coisa tipo passeio nas dunas da praia. Crianças.
Hoje mudei de emprego. Estou trabalhando na Barra e todo dia pego o Elevado do Joá, que compensa a viagem longa com sua belíssima vista, vejo ainda o cartaz enorme dizendo “Sorria, você está na Barra”, mas do lado direito não existem mais as construções com nomes exóticos, os letreiros coloridos. Não sei bem o que aconteceu com a indústria moteleira na Barra. Eram tosquinhos os motéis daquela rua, de fato, e o povo da Barra deve ser mais exigente. Eu cheguei a ir a um motel de lá e saí sem pagar porque o ar condicionado não estava funcionando (a história completa é mais bizarra que isso, um dia eu conto) - obviamente nunca mais voltei - e hoje o lugar nem existe mais. Acredito que o catalisador da morte dos motéis tenha sido a transformação do bairro em um lugar agitado - quem quer ir a motel quer um pouco de privacidade. Mas o fato é que a era da Barra como refúgio de casais apaixonados parece ter chegado ao fim. Agora a Barra quer ser Miami Beach. Bem, eu não faria sexo em Miami Beach, não me parece especialmente erótico. Mas foi isso que os habitantes escolheram. Pelo menos eu não moro na Barra.


Trânsito foi um dos culpados. O outro foi o surgimento de bons motéis em áreas mais centrais, como o Centro e bairros adjacentes. Hoje não é mais necessário despencar pra Barra para ir a um cinema no shopping e depois dar uma “esticada”.
Alguns ainda resistem, tem um logo atrás da Academia da Cachaça que vai bem, obrigado. Mas é um posicionamento estratégico.
Sinto falta mesmo do tempo que dava pra namorar dentro de carro, quando o único risco existente era ser interrompido pela polícia.
Esse atrás da Academia da Cachaça que você está falando, é ali perto do Loft (que era o falecido motel Top), o Maxim? Ele era bem melhorzinho também, não sei como está hoje. Foi o primeiro motel em que entrei na vida :)
Nat, a rua dos motéis ainda existe e claro com seus motéis sobreviventes, as vezes eu passo por ela quando vou pra casa, fica no Largo da Barra Velha (aka Barrinha ou Barra Antiga), entre São Conrado e Largo da Barra, no encosto da Pedra da Gávea.
bjks!
Claudio IndioX
Ainda existe alguma coisa nela? Mayflower, Playboy, Toy, esses “tradicionais”, que a gente via os letreiros chegando pelo elevado fecharam todos, imagino. Lembro de uma amiga dizendo que adorava o Filé à Parmeggiana do Toy. Achei meio estranho, eu prefiro comer filé à parmeggiana em outros lugares mais confiáveis.
Renata, ainda existem sim, pelo menos o Mayflower e o Toy e, claro, o Xa-Xa. A Barra não perdeu muito de suas velhas características…
Curioso, porque dava pra ver os letreiros e hoje em dia não dá mais, por isso pensei que tivessem fechado.
Esse Dunas é o paraíso dos pernilongos.
Acho que na primeira vez que fui ao Rio, fiquei nele. Fora que tem um esquema que uma determinada porta pode ser aberta por fora, e não por dentro. Acredito que isso seja usado pelo ’serviço de quarto’. Assustador.
Sempre tive uma sensação estranha ao passar pela Barra, especialmente aquela Av das Américas, com sua estranha estátua na frente do NYC.
Gostei muito de seus textos, e se não tiver problema, vou utilizar aquele sobre as coisas que os nerds gostam no trabalho.
Abraço
Mayflower não tem mais… pena… não era dos piores e foi o primeiro que entrei, com 17 anos!
Tá, na época dava até pra isso
Também entrei no primeiro com 17 anos. Não pediam identidade na Barra naquela época. Tenho umas histórias hilárias com motel, de ser barrada na porta por não ter identidade, ah, meus dezoito anos :D