Vida difícil
Existem pessoas que nunca vão progredir na vida porque são irresponsáveis. Por algum motivo, ando tropeçando em várias dessas ultimamente - talvez porque existam muitas por aí, sempre pedindo “uma ajudinha por favor”, “uma oportunidade” e você oferece. E jogam a oportunidade fora, e você, ser perverso, que não deu a segunda chance.
Exemplo #1:
Salão onde eu fazia as unhas tratava as manicures como lixo, cobrando delas o uniforme que vestiam, taxas para utilização da estufa, multas sobre qualquer besteira. Eu me revoltei, escrevi uma reclamação formal ao salão e combinei com uma manicure que iria pagar o mesmo que o salão cobrava, com ela indo à minha casa, a uma quadra do salão. Primeira semana do combinado, você foi? Nem ela. Você ligou? Nem ela. Quatro dias depois ela me liga e diz que o tio morreu, que deu o maior problema, etc. Ok, podia ter avisado ao invés de me deixar esperando que nem um coqueiro verde, mas tudo bem, semana que vem, tá combinado. Semana seguinte, mesma coisa. Nem sombra da manicure, nenhuma ligação. Dessa vez não foi o tio nem o papagaio do tio, porque ela nem se dignou a ligar. E sumiu. Merece ser destratada pelo salão mesmo, não?
Exemplo #2:
Fiz uma compra de shampoo em quantidades industriais (o suficiente para não precisar de shampoo pelo próximo ano) e pedi entrega por motoboy. Marquei terça, no trabalho. Nem saí pro almoço com medo do cara chegar e lá pelas 18:00 nem sinal do sujeito. Entrei em contato com o vendedor e ele me disse que a moto do indivíduo havia quebrado - novamente, sou a última a saber, depois de esperar plantada por horas. Quinta então? De novo, esperei até o fim da tarde e nem sombra do motoqueiro fantasma. Sem desculpas dessa vez, pensei que o sujeito havia desistido de mim. Sexta saio feliz para o almoço, e pouco depois de voltar, eis que a recepção avisa que ele mesmo, o motoqueiro from hell estava lá, com meu balde de shampoo. Haha. Quase mandei voltar. Só não dei piti porque estava no trabalho, mas reclamei o suficiente pro sujeito se desculpar mil vezes. E tem uma cliente a menos.
Exemplo #3:
A faxineira até que estava indo bem lá em casa, mas arrumou um emprego fixo e disse que levaria a irmã para substituí-la, que era ótima etc. Ontem já ligou para avisar que a irmã iria sozinha no primeiro dia - o que é discutível, mas passável. Hoje 8 da manhã a irmã liga para avisar que vai chegar atrasada, e tem uma conversa mais ou menos assim com o Fabio:
- Vou me atrasar.
- A gente tem que sair pro trabalho, você não prefere vir amanhã?
- Não, tô saindo! - e desligou
Fiquei apreensiva porque, embora meu horário seja flexível, ele não é uma baderna. Uma faxineira novata você precisa explicar como funcionam várias coisas na sua casa e isso leva pelo menos uma hora. Eu saio às 10:30 e ia continuar saindo 10:30. Bem, como dá pra imaginar, 10:30 a moça não havia chegado ainda. Saí, avisei ao porteiro que se ela chegasse, era para mandar de volta para Osasco sem dó nem piedade.
Agora me digam, gente assim vai continuar pulando de sub-emprego em sub-emprego pro resto da vida, não? Fica difícil se estabelecer na vida sem a capacidade de cumprir regras simples combinadas com as pessoas.


É…
Hehe :D
Bela “coluna”!
Oi Renata,
Acompanho seu site pelo feed, acessei o post só pra ver se algum defensor-dos-direitos dos-que-não-gostam-de-trabalhar tinham dito alguma coisa, parece que não.
Concordo em gênero, numero e grau. ( sim, eu sempre quis dizer isso :P )
uma vez marquei uma prova na segunda-feira (de manhã), e um aluno faltoso me mandou o seguinte email na terça: dizendo que o aniversário tinha sido no domingo, que a festa foi até tarde, e não conseguiu acordar para a prova na segunda….
Até aqui já tá ruim, mas ficou pior: o email terminou assim: “como é que fica?”
Dei reply, e mandei na lasca: “fica com zero”. Mais ou menos análogo a mandar de volta pra osasco sem dó nem piedade… RISOS
Abraços
Carlos
Sem preconceito mas vejo que todos estão no mesmo nível social.
Por um lado fico contente por serem pessoas que nunca irão ter capacidade de concorrer a um emprego junto comigo.
Por outro fico LOUCO porque ainda temos que medir palavras ao lidar com pessoas dessa estirpe.
[]´s
ps.: Se alguém defender esse tipo de gente eu volto.
Olha, eu ainda dou um desconto pra essa gente que não teve acesso a informação nenhuma, mas isso também não é desculpa, o que não garante o perdão. Porém é mais sério o caso daquele que tem algum nível de instrução, que teve pai e mãe, e ainda me pára o carro embaixo da placa de proibido estacionar e reclama que levou multa!!! Cadeira elétrica nele!!!
É a Síndrome do Esperto, Lei de Gerson é uma instituição nacional.
Pode ver: NENHUM pedreiro ou pintor recusa serviço. No máximo combina com você, arruma outro serviço pro mesmo horário, manda um primo ou colega incompetente e você que se dane, tem que entender.
Quando reclama, um monte de gente sai defendendo. “ah, é pobrinho, coitado”. SIM, vai continuar gramando justamente por se achar ESPERTO.
O grande problema do pobre é que os mesmos mecanismos sociais que ajudam-no a enfrentar a pobreza, impedem-no de ir para cima e para frente.
O mesmo acontece com quem é de classe média: quantos conseguem sair do “trio harmonioso” emprego público-condomínio fechado-plano de saúde para tornarem-se ricos? (Eu sou de classe média e posso afirmar que dificilmente vou ser rico um dia; padeço das mesmas limitações que afligem os outros de mesma espécie, e saber disso não resolve nada por si só.)
Comparando o pobre e o classe-média, eu apontaria os seguintes fatores que acorrentam o pobre à sua condição:
* No “planeta pobre”, o indivíduo tem relativamente pouca importância. O que interessa é o coletivo. Em particular, o coletivo do pobre é a sua família estendida. Ele é muito mais apegado à família estendida do que uma pessoa de classe média.
Isto tem efeito duplamente pernicioso: tira ênfase das conquistas individuais, e restringe o horizonte do indivíduo à sua família que provavelmente tem a mesma condição social, ideologia, nível escolar etc. etc. Apegar-se à família significa excluir, por exemplo, a busca de relações de amizade e associação com “desconhecidos”. O apego à família e a desconfiança a respeito de “estranhos” é considerada uma característica latino-americana, e não admira que a AL seja pobre.
* As conquistas individuais acabam, por diversos mecanismos, sendo diluídas para o grupo. Se alguém consegue um emprego melhor, ou constrói uma casa maior, imediatamente outras pessoas (da família) sentem-se no direito de sugar aquele indivíduo: um dinheirinho emprestado que nunca é devolvido, um enterro em que o cara é convocado a pagar sozinho, um cheque emprestado para parente com nome sujo, e por aí vai.
Embora tais coisas sejam inimagináveis para quem é de classe média, que geralmente só considera família mesmo a família nuclear (esposa e filhos menores), para o pobre essa exploração não “dói” muito; ele sente-se cumprindo um dever, ou um papel social, pode até ficar feliz em poder fazer isso.
Mas naturalmente ele nunca vai obter juros compostos (tanto no sentido objetivo quanto no figurado) em cima das conquistas dele, porque tudo é imediatamente consumido. E é claro, existe o “moral hazard”: se o sujeito não pode ele mesmo usufruir da sua renda extra, para que tê-la?
* Finalmente, o sistema de valores do pobre é completamente diferente da classe média, que por sua vez é completamente diferente dos ricos. Por exemplo, pontualidade é um valor muito caro à classe média, mas não o é para pobres, e *também não o é para ricos*.
Valores que são caros para a classe média, mas (acho) não o são para pobres nem para ricos: pontualidade, estrito cumprimento de contratos verbais e escritos, palavra dada, cultura geral, cumprimento de leis e regras,
Valores que são caros para ricos e classe média, mas não o são para pobres: individualidade, privacidade, silêncio, inserção na sociedade (i.e. em grupos sociais que não a família).
Acho que, por conta dos exemplos que citei, deduziram que esse tipo de coisa só acontece com pobre. Muito pelo contrário. O “pobrezinho” está em todas as classes sociais. Tive uma colega de colégio, de família consideravelmente rica, que não estudava nada, era efetivamente uma das piores alunas da escola (de ficar na última colocação nos simulados pré-vestibular) e, no meio do 3o. ano, “passou” para uma “universidade” que ficou famosa por aprovar um analfabeto no vestibular. Veja bem, ela queria de qualquer forma EM JULHO o certificado de conclusão de 2o. grau só porque havia “passado no vestibular”. Levou um não da escola e ficou revoltadíssima, achando-se injustiçada. Coitada, né? Morri de pena.
Bem lembrado que todas as classes sociais tem seus ‘coitadinhos’.
(meio off-topic)
Se bem que o que eu tenho mais aprendido nos últimos tempos é que qualquer serviço ou produto porco é vendido bem e elogiado desde que:
1 - Seja cobrado os olhos da cara (se a pessoa reclama e chora que está caro, você não está cobrando caro o suficiente)
2 - Esteja impregnado de siglas e babaquices “enterprise” (ou o equivalente correspondentes à área)
3 - O produto ou serviço do concorrente seja diminuído com FUD e falácias (basicamente)
E é claro, quando se descobre a farsa, a defesa aparece com força total.
Ou seja, não se aceitam essas atitudes de ‘autônomos’ (justificadamente), mas se tivesse um nome por trás… se aguentaria coisa muito pior…
Melhorar ou evoluir na vida significa sair da zona de conforto, e em geral isto nos custa muito: estou lendo um livro que diz que os mamíferos são os piores na hora de aceitarem alguma mudança. Não que isto justifique, muito pelo contrário, sem sair da zona de conforto teríamos a muito entrado em extinção. Mas sair da zona de conforto implica em assumir para si a responsabilidade da situação atual e da futura, o que a maioria das pessoas não quer.
Veja o exemplo da sua manicure. Ela é uma coitada porque o emprego a explora, não porque ela não busca alternativas melhores - pelo menos na cabeça de muita gente. Se ela começar a atender em casa, vai assumir para ela a responsabilidade de ganhar melhor e não pagar taxas. E quem é que quer deixar de poder colocar a culpa no patrão ou no chefe pela própria infelicidade?
No exemplo da amiga que queria porque queria o diploma, provavelmente vai passar a vida dizendo que perdeu a oportunidade da vida dela porque a escola não queria dar o simples papel. É tudo que ela deve precisar para passar a vida se sentindo vítima e não responsável pelos próprios fracassos…
[...] Renata em seu blog desabafa no seu post intitulado “Vida Difícil“, sobre como as pessoas podem ser tão irresponsáveis e perdem as oportunidades que surgem [...]
Esse post podia ser bom, mas põe muita ênfase nos pobres e miseráveis. Até o segundo caso, em que parece haver uma empresa envolvida, põe ênfase no motoboy. Daí o foco meio equivocado da maioria dos comentários. Mas a própria autora menciona “sub-emprego” (sic) e “progredir na vida”. Só aborda as mancadas de quem está por baixo. Então o post é preconceituoso mesmo.
Bem disse o/a Tabgal, e merece destaque: empresas de grande nome fazem muito pior, e as pessoas toleram. Veja como celular vende mais que pão quente apesar da qualidade incrivelmente porca dos serviços. E essa lógica de que “Deus castiga” não se aplica aos encanadores e marceneiros, por exemplo. Estes vivem dando cano em todo mundo e vivem muito bem.
Gente irresponsável existe em todas as classes sociais. Aliás, sabe-se nos meios financeiros que as faixas mais pobres são as que menos entram em inadimplência. A classe média se enforca no crediário, e o rico não tem medo de tomar grandes empréstimos para realizar projetos ambiciosos - e dar grandes calotes se for preciso. O pobre, seja por honestidade, vergonha ou medo da própria sombra, é muito mais cauteloso. Pode muito bem ser honestidade mesmo, pois o moralismo extremo é um refúgio muito comum entre os que têm complexo de inferioridade. Achar-se mais “decente” do que quem está acima em condições financeiras é uma das formas mais populares de consolo para quem vive na miséria. É o famoso lema “sou pobre, mas sou limpinho”.
Eu poderia contar alguns casos de pobrezinhos irresponsáveis, mas teria muito mais histórias de gente razoavelmente bem de vida - simplesmente porque é o perfil da maioria das pessoas com quem eu me relaciono.
Adorei o post. Ja passei varias vezes por isso e sei a raiva que da. Inclusive da historinha da filhinha de papai. Classica.
Alias, meu cunhado de 32 anos nao trabalha e mora com os pais. Nao faz p.n. da vida. Reclamam que ele nao tem emprego, mas ele tb nao procura, ne? Eh que nem ganhar na loteria sem jogar. Agora, tinham que dar um ultimato nele: ta precisando de $? Vai entregar pizzas, vai ser caixa no supermercado, vai fritar hamburgers no McDonald’s. Ate aparecer alguma coisa melhor.
Excelente o seu blog,adorei o post,isso costuma acontecer muito comigo também,é um saco ¬¬