Estou trabalhando na Barra, e preciso contar para todos o que é a Barra, para poder compartilhar com o mundo essa sensação desgastante de passar quase 3 horas por dia no trânsito para me despencar para o outro lado da cidade.
Nasci e fui criada na Zona Sul do Rio de Janeiro - ou seja, a parte tradicional da cidade, onde passa o metrô e onde a história aconteceu. Existem outras regiões da cidade também, mas não vamos falar sobre a Zona Sul (bastante conhecida pelos espectadores de novelas da Globo, deprimente) nem sobre nenhuma das outras. Vamos falar sobre este lugar sem história ou vida, que até 30 ou 40 anos atrás era um imenso NADA, uma faixa de areia atravessado por uma faixa de asfalto, a Rio-Santos, este lugar estranho chamado BARRA DA TIJUCA.
Vamos falar do passado: A Barra da Tijuca tem esse nome por se localizar no entorno da Lagoa da Tijuca, creio eu. Olhando no link do Google maps, ela fica em toda aquela região da Lagoa da Tijuca (do lado da setinha) e a Lagoa de Marapendi. Já era um bairro monstruoso, originalmente, e, com a expansão imobiliária, foi roubando espaço de outros bairros - por exemplo, o Aeroporto de Jacarepaguá, o Autódromo de Jacarepaguá, e várias coisas que ficavam no Recreio dos Bandeirantes, que são bairros próximos, hoje ficam na Barra, porque é mais chique ficar na Barra que no Recreio ou Jacarepaguá.
Mas vamos voltar à história: Entre 30 e 40 anos atrás, não existia NADA, rigorosamente NADA, na Barra da Tijuca. Casais afoitos iam para estes bairros desertos namorar dentro dos carros, na beira da praia - isso ainda é praticado num trecho exclusivo da praia do Recreio, que é reserva ambiental, e não tem iluminação de noite nem nada, mas não é a mesma coisa. Tal prática era conhecida pelo nome de “assistir corrida de submarino”, entre outros apelidos engraçadinhos. Espertamente, começaram a brotar hotéis e motéis na região - em “Asfalto Selvagem”, Nelson Rodrigues já citava uma casa que alugava quartos em São Conrado, que fica logo antes da Barra - e os casais já não precisavam mais ficar dentro dos carros. A área da Barra escolhida foi o Itanhangá (que significa, em Tupi, “pedra do diabo”), que era por onde se chegava no bairro na época - primeiro é preciso subir a estrada do Joá, uma pedra alta e cheia de curvas fechadas, até hoje bem ruim para os motoristas, imagine tantos anos atrás - e lá nascia a Rua dos Motéis. O carioca que nunca foi à Rua dos Motéis que levante a mão. Alguns motéis têm mais de 20 anos de idade (e mantêm a decoração de 20 anos atrás, dizem!).
Depois, para facilitar a chegada na Barra, nasceu o glorioso Elevado do Joá. Eu morria de medo de passar por ele quando era criança, achava que ia cair no mar, mas a vista é linda. Começaram a nascer toneladas de prédios e houve o boom imobiliário. Shoppings, condomínios, tudo acontecia ao mesmo tempo na Barra. Morar na Barra de repente ficou chique. Os prédios são de gosto duvidoso - sempre um vidro azul-espelhado, granito e esculturas modernosas - mas tudo muito grande, espaçoso - espaço não falta - e prepare-se para ter um carro, porque só se vive de carro por lá. Ultimamente várias empresas têm se mudado para a Barra, e se você mora longe, só lamento, vai pegar muito trânsito para ir e voltar. Ah sim, esqueci de explicar um detalhe: o bairro foi todo construído ao longo de duas avenidas paralelas: a antigamente chamada Rio-Santos, hoje Av. das Américas, e a av. Sernambetiba, que é a avenida da praia. Em um certo momento, elas são cortadas pela Av. Ayrton Senna, que já foi Av. Alvorada, mas houve uma época em que ali não era tão Barra assim, como tudo por ali.
Para vocês verem que eu não estou exagerando, um pouco de pesquisa na internet e eu achei uma foto tirada do filme “Brasil Ano 2000″ - que é de 1968 - filmado na região onde eu trabalho, bem no meio da Barra, próximo ao maior shopping do Rio de Janeiro. Também achei foto do mesmo lugar tirada do site da CET-Rio em 2000 (de verdade) - as fotos são do site BarraCineOntem. Quarenta anos atrás quaisquer bairros das zonas norte e sul não eram areais como a Barra - é por isso que ela joga seu esgoto sem tratamento no mar até hoje, por conta do crescimento absurdo e desordenado em tão pouco tempo.
E qual o resultado? A Barra se transformou de um amontoado de areia em uma mini cidade com quilos de shoppings, cinemas e supermercados em menos de 40 anos. Claro que não podia dar 100% certo. O trânsito é caótico, o esgoto é um problema, as lagoas estão absurdamente poluídas, o calçamento é precário, vários terrenos baldios estão virando favelas, enfim, todos os problemas de uma cidade que cresceu mal administrada, só que em um só bairro. Os apartamentos lá são de alto luxo, mas custam a metade do preço de um equivalente na parte “tradicional” da cidade (ainda vão me perguntar o motivo?). E ainda tem uma placa quando você chega dizendo “Sorria, você está na Barra”. Foi mal, mas eu só consigo sorrir quando meu ônibus passa por lá na hora de ir embora.
Lista de Presentes 2008:
Paint it Black:
A Volta:
Sorria, você saiu da Barra:
Timezone louca no PHP:
Golpe?: