Archive for the 'Desabafos' Category

O Peso da Idade

Falta pouco mais de dois meses para meu aniversário de 28 anos. E eu me sinto, às vezes, uma velha de 90, mais resmungona que minha avó, que recém comemorou seus 89 outro dia. Ando sem paciência para muita coisa nessa vida, o que me deixa com a sensação que meus poucos, mas insistentes cabelos brancos têm seus motivos: sou novinha de corpo, mas velhinha de cabeça.

Não tenho tido paciência, como é comum à juventude, para discussões inúteis. Hoje mesmo brinquei com um cara do trabalho sobre Windows, ele começou uma discussão sobre as vantagens do Windows 2003 Server, e eu me resignei e disse “Olha, eu estava só brincando, odeio este tipo de discussão”. Odeio mesmo, isso nunca vai me levar a lugar nenhum, eu tenho mais o que fazer da minha vida do que argumentações que eu já fiz 500 vezes. Vai ler o Baboo e me deixa em paz.

Isso é extremamente curioso vindo de mim, cheia de opiniões ditas “polêmicas” e tal - continuo com elas, mas ando sem saco para discuti-las. Guardo os argumentos para mim, tenho meus amigos que concordam comigo, quero comprar o God Delusion em inglês só pra ver o quanto eu concordo com o Dawkins, etc. Mas argumentações sérias? Tô fora. No máximo uma filosofia de botequim com os amigos. Acho que passei da fase de jovem rebelde contestadora, sei lá, existe isso? Não que eu tenha parado que questionar, mas eu não tenho a paciência necessária para argumentar com gente que não vai gerar uma discussão, digamos, frutífera.

Enfim, acho que a idade pesou e minha paciência para o mundo foi embora. E eu não tenho nem 30 anos. Imaginem só o que vai ser do pobre interlocutor que me perguntar qual o melhor de dois sistemas operacionais daqui a 10 anos?

Sorria, você saiu da Barra

Estou trabalhando na Barra, e preciso contar para todos o que é a Barra, para poder compartilhar com o mundo essa sensação desgastante de passar quase 3 horas por dia no trânsito para me despencar para o outro lado da cidade.

Nasci e fui criada na Zona Sul do Rio de Janeiro - ou seja, a parte tradicional da cidade, onde passa o metrô e onde a história aconteceu. Existem outras regiões da cidade também, mas não vamos falar sobre a Zona Sul (bastante conhecida pelos espectadores de novelas da Globo, deprimente) nem sobre nenhuma das outras. Vamos falar sobre este lugar sem história ou vida, que até 30 ou 40 anos atrás era um imenso NADA, uma faixa de areia atravessado por uma faixa de asfalto, a Rio-Santos, este lugar estranho chamado BARRA DA TIJUCA.

Vamos falar do passado: A Barra da Tijuca tem esse nome por se localizar no entorno da Lagoa da Tijuca, creio eu. Olhando no link do Google maps, ela fica em toda aquela região da Lagoa da Tijuca (do lado da setinha) e a Lagoa de Marapendi. Já era um bairro monstruoso, originalmente, e, com a expansão imobiliária, foi roubando espaço de outros bairros - por exemplo, o Aeroporto de Jacarepaguá, o Autódromo de Jacarepaguá, e várias coisas que ficavam no Recreio dos Bandeirantes, que são bairros próximos, hoje ficam na Barra, porque é mais chique ficar na Barra que no Recreio ou Jacarepaguá.

Mas vamos voltar à história: Entre 30 e 40 anos atrás, não existia NADA, rigorosamente NADA, na Barra da Tijuca. Casais afoitos iam para estes bairros desertos namorar dentro dos carros, na beira da praia - isso ainda é praticado num trecho exclusivo da praia do Recreio, que é reserva ambiental, e não tem iluminação de noite nem nada, mas não é a mesma coisa. Tal prática era conhecida pelo nome de “assistir corrida de submarino”, entre outros apelidos engraçadinhos. Espertamente, começaram a brotar hotéis e motéis na região - em “Asfalto Selvagem”, Nelson Rodrigues já citava uma casa que alugava quartos em São Conrado, que fica logo antes da Barra - e os casais já não precisavam mais ficar dentro dos carros. A área da Barra escolhida foi o Itanhangá (que significa, em Tupi, “pedra do diabo”), que era por onde se chegava no bairro na época - primeiro é preciso subir a estrada do Joá, uma pedra alta e cheia de curvas fechadas, até hoje bem ruim para os motoristas, imagine tantos anos atrás - e lá nascia a Rua dos Motéis. O carioca que nunca foi à Rua dos Motéis que levante a mão. Alguns motéis têm mais de 20 anos de idade (e mantêm a decoração de 20 anos atrás, dizem!).

Depois, para facilitar a chegada na Barra, nasceu o glorioso Elevado do Joá. Eu morria de medo de passar por ele quando era criança, achava que ia cair no mar, mas a vista é linda. Começaram a nascer toneladas de prédios e houve o boom imobiliário. Shoppings, condomínios, tudo acontecia ao mesmo tempo na Barra. Morar na Barra de repente ficou chique. Os prédios são de gosto duvidoso - sempre um vidro azul-espelhado, granito e esculturas modernosas - mas tudo muito grande, espaçoso - espaço não falta - e prepare-se para ter um carro, porque só se vive de carro por lá. Ultimamente várias empresas têm se mudado para a Barra, e se você mora longe, só lamento, vai pegar muito trânsito para ir e voltar. Ah sim, esqueci de explicar um detalhe: o bairro foi todo construído ao longo de duas avenidas paralelas: a antigamente chamada Rio-Santos, hoje Av. das Américas, e a av. Sernambetiba, que é a avenida da praia. Em um certo momento, elas são cortadas pela Av. Ayrton Senna, que já foi Av. Alvorada, mas houve uma época em que ali não era tão Barra assim, como tudo por ali.

Para vocês verem que eu não estou exagerando, um pouco de pesquisa na internet e eu achei uma foto tirada do filme “Brasil Ano 2000″ - que é de 1968 - filmado na região onde eu trabalho, bem no meio da Barra, próximo ao maior shopping do Rio de Janeiro. Também achei foto do mesmo lugar tirada do site da CET-Rio em 2000 (de verdade) - as fotos são do site BarraCineOntem. Quarenta anos atrás quaisquer bairros das zonas norte e sul não eram areais como a Barra - é por isso que ela joga seu esgoto sem tratamento no mar até hoje, por conta do crescimento absurdo e desordenado em tão pouco tempo.

E qual o resultado? A Barra se transformou de um amontoado de areia em uma mini cidade com quilos de shoppings, cinemas e supermercados em menos de 40 anos. Claro que não podia dar 100% certo. O trânsito é caótico, o esgoto é um problema, as lagoas estão absurdamente poluídas, o calçamento é precário, vários terrenos baldios estão virando favelas, enfim, todos os problemas de uma cidade que cresceu mal administrada, só que em um só bairro. Os apartamentos lá são de alto luxo, mas custam a metade do preço de um equivalente na parte “tradicional” da cidade (ainda vão me perguntar o motivo?). E ainda tem uma placa quando você chega dizendo “Sorria, você está na Barra”. Foi mal, mas eu só consigo sorrir quando meu ônibus passa por lá na hora de ir embora.

Festivais

Essa época do ano é sempre animada. E um tanto depressiva. Tem o Festival do Rio, tem o Tim Festival, e a gente quer ver filmes e shows e nosso dinheiro vai pro espaço.

O Festival do Rio esse ano me alegra imensamente por trazer o tão esperado (por mim, claro) Control, baseado na história do Ian Curtis, e eu, como ávida fã de Joy Division, vou comprar meu ingresso para a primeira sessão tão logo comecem as vendas. O cara era um deprimido epilético que cantava mal - mas tinha uma voz maneira - e se matou com 23 anos quando eu tinha poucos meses de idade mas e daí, existe todo um culto em torno dele porque as músicas são lindas mesmo, e dizem que o filme é ótimo. Além do Control, temos o esperadíssimo duo Grindhouse - Planet Terror e Death Proof, que dispensa apresentações. Vejam os trailers, se ainda não viram. Sou fã do Tarantino e do Robert Rodriguez e estou numa fase bem sangrenta ultimamente. E daí esse trio de filmes já me faz bem feliz, e razoavelmente falida.

Sobre o Tim Festival, eu estou bem chateada. Eles vão trazer a Björk, e eu adoro ela. Achei o último album muito fofo e tal. Mas putz, é anormal o que eles querem cobrar de ingresso - 180 reais. Foi a mesma coisa que aconteceu com o show do New Order ano passado, eu não fui e não me arrependo tanto assim, porque faço muitas coisas legais com esse dinheiro. Adoro a Björk, mas 180 pratas não rola. E o mais revoltante é que o mesmo show dela em Curitiba vai custar SESSENTA REAIS, isso mesmo, UM TERÇO do preço aqui do Rio. O que me deixa mais convencida a não comparecer, e a ficar em casa dando uma festinha. Bem mais econômico.

E vocês, o que vão querer desses festivais?

Infected Mushroom

As pessoas adoram incrementar uma receita, mesmo que não tenha nada a ver, adicionando champignons a ela. Isso faz com que diversos pratos que encontramos por aí contenham, por mais bizarro que pareça, champignon. Não me levem a mal, eu não tenho nada contra cogumelos - eles é que têm contra mim.

A primeira reação que tive ao supracitado assassino amarelado eu devia ter uns cinco anos. Comi um peixe, obviamente adornado da iguaria em conserva, e passei muito mal depois. Culpei o pobre badejo, coitado, e pouco tempo depois deliciei-me novamente com um prato contendo os temíveis fungos comestíveis. Novamente, não deu certo, e quase fui parar no hospital. A desconfiança pairou no ar e parei de comê-los para todo o sempre, assim como qualquer coisa aparentada - funghi, shiitake, cogumelos frescos, entre outros. São deliciosos, mas o que acontece comigo depois não é delicioso.

Isso, obviamente, já me trouxe algumas saias-justas. Quando conheci o Fabio e ele me levou para almoçar com a família dele pela primeira vez, sua mãe, que é uma exímia cozinheira, preparou cuidadosamente um incrível MACARRÃO AO FUNGHI - que eu, obviamente, não comi. Em outra ocasião, num almoço de confraternização da empresa na qual eu trabalhava, a comida era um fantástico ESTROGONOFE (brasileiro, claro, o original leva cogumelos frescos e em nada se parece com o nosso) do qual só pude comer as batatas. E eu poderia continuar, pois essas coisas sempre acontecem e continuarão acontecendo - e as pessoas sempre acham que é só tirar o cogumelo assassino de cima que está tudo bem, eu posso comer, como se ele já não tivesse largado seu temperinho, seu líquido saboroso e matador no alimento e o infectado para mim. (Nossa, que dramático, vou entrar pro Evanescence)

Conheço muita gente alérgica a leite, mariscos e camarão, mas a cogumelos, sou o único caso que já ouvi falar. E olha que Super Mario era meu jogo favorito.

Nobreza Falida

Eu estou bastante incomodada com essa eleição do Cristo e o Pan-Americano. Porque isso afeta diretamente minha vida. Acho que todo cidadão deveria estar, mas vejo muita gente deslumbrada com esses eventos por aí. O Rio de Janeiro, bem como o Brasil, já teve seus dias de glória, mas vivemos hoje em dia uma decadência e, bem, é importante ter consciência disso, até pra conseguir dar um jeito. O problema é que quando alguém fala da violência, da saúde, da educação, tem sempre outro alguém pra responder “ah, mas todo país tem problemas, em tal lugar tem isso também”. Pois é. Também tem outra coisa que me incomoda no povo brasileiro. Por sermos esse grande país da América Latina que fala português, nos sentimos especiais. Nos sentimos não-latinos. Nos sentimos uma elite e nos achamos melhores que o resto da América Latina inteira, só porque não falamos espanhol, o que é estranhíssimo. E vou dar meus argumentos contra isso tudo agora.

Escolhi um índice aleatório, o Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU, pra fazer minhas comparações. Ele é bem popular e tal, então fica mais fácil. Segundo ele, é claro que outros países tem problemas, mas pelo menos 68 países tem menos problemas que o Brasil, que encontra-se em 69o. lugar da lista e, desses 68, temos Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica, Cuba, Dominica, Antigua e Barbuda e até mesmo Trinidad e Tobago (acreditam que já estive lá, por uma hora e meia, mas estive?) na nossa frente, e estamos tão bem que logo atrás, encostadinho, em 70o, está a Colômbia. E nós adoramos falar mal da Colômbia. Pois é. Legal, né? Mas não se preocupem, falando mal dos outros e elogiando nossas maravilhas naturais e nosso futebol, daqui a pouco a Colômbia nos ultrapassa.

O nosso mal é esse: não temos o hábito de admitir nossas falhas, e só nos importa falar de nossas coisas boas. Ah, mas as crianças passam de ano mesmo que não saibam escrever ns nossas escolas. Não importa, o Pan vai começar! E a violência? Ah, é só não passar nos lugares perigosos, como o caminho do Cristo, a propósito, você já votou no Cristo? O dinheiro gasto no Pan e nessa campanha poderia ter sido investido diretamente em tanta coisa REALMENTE necessária que fica difícil enumerar. Só de pensar no estado dos hospitais públicos e no tamanho dos estádios eu já fico deprimida. Ah, sim, e tem os assuntos-tabu, que ninguém gosta de falar - viciado em drogas não é gente, deixa morrer na sarjeta, mas e quando é alguém próximo, não merece ser tratado como tal? aborto precisa continuar sendo ilegal, claro, mas e quando é uma amiga nossa que ficou grávida numa situação horrível? Tudo tem que ser encarado com responsabilidade por todo mundo sem hipocrisia, para que qualquer coisa - seja sua família, uma lojinha na esquina ou um país - para ir adiante. Senão, todo o mundo passa na nossa frente.

P.S. A propósito, sendo honesta, eu acho o Cristo só uma estátua e se eu fosse votar em algo, votaria em Machu Picchu (nunca soube escrever isso), na Muralha da China ou Stonehenge. Que são obras sinistras que todo mundo se pergunta até hoje como diabos fizeram aquilo naquela época. Não sou ufanista. Sou muito pé no chão pra isso.

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