Archive for the 'Escrituras' Category

A Última Virgem

Eu sempre detestei a Sandy por tudo o que ela representa. Permitam-me explicar. Sou feminista. Se existem mulheres que trabalham fora, podem votar, buscam igualdade de direitos, é porque suas mães e avós saíram às ruas anos atrás e batalharam por isso, foram feministas como eu e garantiram esses direitos para elas. Se as mulheres hoje em dia ainda são ridicularizadas quando apanham do parceiro e tentam registrar queixa numa delegacia, ganham menos que os homens em cargos equivalentes, e ainda precisam buscar igualdade de direitos, é porque ainda existe machismo - e o fato de a mídia vender menininhas como a Sandy como a “mulher ideal” - ‘virgem convicta’, submissa aos pais e ao namorado, inocente e dependente tem muito a ver com tudo o que precisa mudar na cabeça não só dos homens, mas também das mulheres, pois a mudança vem de nós também.

E a fofoca da semana diz que a “mulher ideal” estaria grávida do namorado - oh que horror, diriam os puritanos fãs - e vai se casar numa “cerimônia íntima em alguns meses” (provavelmente com um vestido “fluido” com alguns babados, sabe como é). Na verdade, isso só corrobora minha tese que, quanto mais os pais obrigam os filhos a não fazerem sexo, maior a probabilidade de eles não usarem métodos contraceptivos quando fizerem. Mas isso é para outro texto. Estamos aqui nos despedindo do ícone de uma geração de adolescentes, ahn, errados. Queridos, lamento informar: Tanto a Sandy quanto a Britney fizeram sexo pré-marital. E sem camisinha. Agora, Sandy, nossa pós-adolescente pseudo-virgem, vai se casar. E grávida. Engraçado que eu podia apostar que isso ia acontecer. Bem, boa sorte, Sandy. E lá se vai A Última Virgem.

Escolhas

Vamos falar sobre escolhas. O grande problema do mundo é fazer uma escolha e assumir a responsabilidade sobre ela. Então é mais fácil fazer “o que todo mundo faz”. Voltando ao tema favela, sabemos que ela não é um lugar legal pra se morar - falta saneamento, segurança, etc. Então porque TANTA gente mora lá? É perto do trabalho, e fácil de alugar. Mas ao mesmo tempo, quando você se dispõe a morar numa favela, você assume os riscos que citei no outro texto. Você pode morar afastado do centro - vai levar muito tempo pra chegar no trabalho e gastar muito dinheiro com passagem, mas é mais seguro. Só que, nos últimos anos, a escolha padrão tem sido viver em favela para as classes baixas, assim como a população em geral mora na cidade grande e não no interior.

Um ex-gerente meu optou, uns anos atrás, se mudar com a família para uma fazenda no interior do Espírito Santo, oferecendo tranquilidade, segurança, outro padrão de vida para os filhos. Acho fantástico, mas poucas pessoas têm essa coragem. Os filhos dele terão muito menos chances de se envolver em crimes e acidentes do que qualquer jovem das metrópoles, e provavelmente serão mais saudáveis também. Mas será que eu conseguiria? Estou me mudando para outra cidade grande e já achando um enorme passo.

Enfim, o grande lance é que a sociedade não é a única culpada pelo que acontece com você. Quando você anda de moto numa via movimentada, você está se expondo a um risco de vida que o moleque que anda na rua de terra praticamente não tem. É o preço que você paga. Você escolheu. Quando você mora numa favela, é a mesma coisa. Claro que quando você NASCE num lugar desses é mais difícil, mas nada é impossível - por isso a parte de conscientização das escolhas é tão importante. Se você sabe que você pode escolher, tudo fica mais fácil. E por hoje chega.

Be-a-bá do Capitalismo

Lendo o jornal, acho que preciso explicar noções básicas de capitalismo para as pessoas.

1. Alguns nascem ricos, outros nascem menos ricos, uns nascem pobres, outros nascem miseráveis.

2. A distribuição de renda é injusta. Há muito dinheiro na mão de poucos, e pouco dinheiro na mão de muitos.

Eu nasci na classe média mais-ou-menos. Gostaria de morar num flat nos Jardins - perto do trabalho, com arrumadeira cinco vezes por semana, piscina, sauna, varanda, etc. Obviamente não tenho dinheiro para isso. Com boa vontade, consigo um dois quartos em Moema. Se eu quiser mais que isso, eu vou trabalhar muito para conseguir um salário melhor.

O problema é que as pessoas que nascem pobres reclamam da injustiça social pelo método incorreto. Moram em favelas - habitações ilegais, geralmente construídas próximas de áreas que não podem pagar ou pior, em áreas de proteção ambiental, onde não pagam a maior parte das contas que deveriam, como IPTU, luz, telefone, TV a Cabo, água, pois é tudo feito na base do “gato”, e a ordem não é mantida pela polícia, mas por alguma organização criminosa que se aproveita da desordem das construções para montar seu QG. Ok, nem toda favela é assim, mas sabemos que a esmagadora maioria é. Então, lamento, se você mora em uma favela, você está vivendo ilegal, é cúmplice do crime, e está expondo a si mesmo e a sua família aos riscos de viver numa zona dominada pelo comando vermelho ou algo que o valha. Se seu filho começar a se relacionar com o tráfico, parabéns, você o aproximou disso - ou você acha que dizer que “a polícia é má, só dá dura nas pessoas, os traficantes é que tomam conta disso aqui” não vai causar nenhum tipo de influência numa criança?

“Ah mas eu não tenho outra saída”. Sempre tem. Você pode viver de acordo com seu poder aquisitivo em Nova Sepetiba ou em algum lugar parecido, que seja calmo e mais seguro. Claro que não é o que você queria - viver sem TV a Cabo, no fim do mundo e tal. Mas eu também queria viver nos Jardins. Não pertencemos à minoria rica e precisamos aceitar isso. Bem vindo ao mundo capitalista.

Update: Comments encerrados, estou sem saco para polêmicas. Mas nada te impede de ter um blog.

Sexo e o Pan

Muito se falou sobre o Pan, inclusive sobre o esgotamento (ui) de camisinhas na Vila do Pan no primeiro dia. Qual a surpresa? Ninguém se lembra que a mesma coisa aconteceu na Vila Olímpica de Atenas em 2004? E muito provavelmente acontece em qualquer outro evento esportivo?

Em primeiro lugar (ha!), vamos parar de falso moralismo: são atletas cheios de saúde, energia, disposição, e tensão causada pela competição, cercados de pessoas interessantes de lugares diferentes com experiências legais pra trocar e os mesmos interesses. Não parece ÓBVIO e NATURAL que façam sexo? E, felizmente, parecem ser bastante cuidadosos e esclarecidos, pois usam camisinha, ao contrário de muita gente pseudo-certinha que eu conheço por aí.

Em segundo lugar, eu não sei o que os treinadores pensam disso, mas eu recomendaria aos atletas bastante lazer (se é que me entendem) seguido de uma boa noite de sono antes de uma competição importante. Acho que os resultados seriam excelentes depois disso. Bem melhores do que com, ahn, “tensão reprimida”. Pensem comigo: atletas são, na verdade, gente como nós. Só que perto de uma competição treinam como loucos, precisam seguir uma dieta rígida, não podem beber, precisam tomar o maior cuidado com o que consomem por aí para não serem pegos por doping (hoje em dia até remédio pra gripe pode ser doping), enfim, é uma vida muito rígida. O que lhes resta? O sexo. Por isso as Vilas Olímpicas e similares se transformam numa suruba - porque eles são gente como a gente e precisam de lazer do mais tradicional possível, como eu, você, e a mãe do Galvão Bueno precisou um dia para gerar aquela entidade. Por mais que tentem dizer que não, todo mundo precisa de sexo. Inclusive o Diego Hypólito - não tentem me convencer que a disposição toda dele ontem era puro amor à pátria.

Se esporte é saúde, eu não sei - eu fico meio assustada com a quantidade de lesões causadas pela ginástica artística, futebol, entre outros. Mas sexo, sem dúvida é, pelo menos usando camisinha ninguém corre muitos riscos. Então, recomendo aos atletas a prática de sexo antes e após as competições (durante fica meio difícil). Só não posso recomendar a prática de esportes antes ou depois do sexo, pois não sou exatamente uma atleta. Saúde!

O fim de uma era

Existe um bairro aqui no Rio de Janeiro chamado Barra da Tijuca. Ele, durante muitos anos (eu diria uns 20 ou 30 - até no Asfalto Selvagem, de Nelson Rodrigues, existe uma referência a motel naquela região) foi conhecido pela enorme quantidade de motéis que abrigava. Havia até uma rua, chamada de Rua dos Motéis, que tinha esse nome por ter dezenas deles, um de cada lado. Quem chegava na Barra via um imenso cartaz “Sorria, você está na Barra” ao sair do Elevado do Joá e, à sua direita, várias construções com nomes exóticos. Quando eu era criança e a Barra era um lugar onde podia-se ir a uma praia mais vazia, eu passava por ali e nem desconfiava do que se tratavam aqueles letreiros coloridos, achava legal e tal. Tinha um, fora daquela rua, mais chique, que existe até hoje, chamado “Dunas”, eu jurava que era alguma coisa tipo passeio nas dunas da praia. Crianças.

Hoje mudei de emprego. Estou trabalhando na Barra e todo dia pego o Elevado do Joá, que compensa a viagem longa com sua belíssima vista, vejo ainda o cartaz enorme dizendo “Sorria, você está na Barra”, mas do lado direito não existem mais as construções com nomes exóticos, os letreiros coloridos. Não sei bem o que aconteceu com a indústria moteleira na Barra. Eram tosquinhos os motéis daquela rua, de fato, e o povo da Barra deve ser mais exigente. Eu cheguei a ir a um motel de lá e saí sem pagar porque o ar condicionado não estava funcionando (a história completa é mais bizarra que isso, um dia eu conto) - obviamente nunca mais voltei - e hoje o lugar nem existe mais. Acredito que o catalisador da morte dos motéis tenha sido a transformação do bairro em um lugar agitado - quem quer ir a motel quer um pouco de privacidade. Mas o fato é que a era da Barra como refúgio de casais apaixonados parece ter chegado ao fim. Agora a Barra quer ser Miami Beach. Bem, eu não faria sexo em Miami Beach, não me parece especialmente erótico. Mas foi isso que os habitantes escolheram. Pelo menos eu não moro na Barra.

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