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Olga não é nome de novela

Eu li no Grobro umas duas semanas atrás uma notícia que me deixou bastante revoltada: Jayme Monjardim (aquele que faz novela na Grande Empresa de Televisão) vai dirigir um filme sobre a vida da Olga Benario - que, devido ao machismo de uns e ao anti-comunismo de outros, foi ignorada na história a ponto de virar apenas “a mulher de Luiz Carlos Prestes”. Ok, vamos analisar o absurdo dessa notícia.

Olga é uma personagem injustiçada na história do Brasil. Não sei como podem falar sobre a revolta comunista tupiniquim nos colégios sem sequer tocar no nome dela. Ela ralou pra cacete com um Prestes delirante (”Cavaleiro da Esperança” é de uma utopia sem tamanho…) a tiracolo e depois foi sumariamente mandada pra um campinho de concentração nazista mesmo estando grávida de sete meses, de onde saiu pra uma câmara de gás alguns anos depois. Tudo porque Getulio queria fazer uma média com os Nazis. Como vocês podem perceber, é uma personagem moleza, ideal para ser interpretada por modelos-e-atrizes que despontam nas novelas das oito. Outro ponto interessante: Jayme Monjardim é tão inteligente e bem informado que alardeava, na notícia, ter descoberto atráves de documentos raros que a filha de Olga chama-se Anita em homenagem a Anita Garibaldi. Ora, me poupem. Não é preciso sequer ler a biografia escrita pelo Fernano Morais para fazer a associação Olga -> guerrilheira -> fã de Anita Garibaldi -> nome da filha é Anita. Ah, sim, é Anita Leocádia - em homenagem à mãe do Prestes que se mandou pra Alemanha pra tentar salvar a nora e a neta de alguma maneira. Mas o fato é que o tio Jayme achou incrível descobrir que OHHH, o nome da filha da Olga é uma homenagem a Anita Garibaldi. Que medo. E esse SER vai dirigir um filme sobre essa mulher.

Não sou fã numero 1 de biografias mas ainda assim recomendaria o Olga do Fernando Morais para os mais interessados na historia da “mulher do Prestes”. E não recomendo o filme desde já. Na mesma notícia, Jayme declarou ter escolhido UMA ATRIZ INICIANTE (que não dificilmente deve ter lhe ofertado uns favores de natureza extremamente artística, se é que vocês me entendem) para fazer a Olga. Isso beira a ofensa. Uma personagem desse porte merecia no mínimo uma atriz DE VERDADE com alguns anos de experiência em teatro e/ou cinema. E com mais de 20 anos, porque a Olga nao era nenhuma pirralha quando foi deportada. Só falta anunciar que o novo galã da novela das oito (musculoso, de preferência) vai encarnar o Prestes e alguma siliconada vai fazer a Elise Ewert - melhor amiga da Olga, deportada junto com ela, outra personagem moleza de interpretar. Não sei se a Anita Leocádia ainda está viva (deve estar, afinal o pai morreu velho pacas e ela deve ter uns 60) mas, no lugar dela, eu me sentiria pessoalmente agredida de ver minha mãe retratada como uma personagem de novela das oito. Olga e Jayme Monjardim sao duas coisas que não combinam entre si!

Então, faça um favor a si mesmo: quando Olga estrear no cinema, vá à livraria mais próxima e compre o livro do Fernando Morais. Duas boas ações em uma: você boicota o episódio de novela sobre a Olga e de quebra ganha um bom livro para sua biblioteca. E mude de canal quando passar no Supercine!

Ser normal é diferente

Eu às vezes fico impressionada como fugir do padrão pode gerar espanto nas pessoas.
Quem me conhece sabe que eu definitivamente não sou uma pessoa padrão, a começar pela minha aparência. Olhe em volta e veja quantas mulheres de menos de 1,50m de altura e com o cabelo vermelho você vai encontrar. Provavelmente nenhuma - ou, caso encontre uma, essa serei eu. Depois, vamos partir pro quesito “interesses”. Você certamente consegue contar nos dedos quantas pessoas você conhece que gostam de matemática e de linux, e dificilmente encontrará alguém que goste de coca cola quente e sem gás. Ótimo, já provei por A + B que eu não sou uma pessoa padrão. O problema é que apesar de saberem que eu não sou padrão, muitas pessoas ainda insistem em querer que eu me comporte como a grande maioria da humanidade em todos os momentos.

Isso é facilmente perceptível quando eu abro a boca pra falar uma das frases mágicas que despertam a ira de 99,99% das pessoas à minha volta: “eu não quero casar” e “eu não quero ter filhos”. Como assim, não quer casar? E como assim, não quer se reproduzir? É, pois é, eu não tenho a menor vontade de casar ou de ter filhos. “Ah” dirão então “você fala isso porque é muito nova”. Pode ser. Mas porque isso incomoda tanto às outras pessoas? Não é a MINHA vida? Não é um problema MEU? E, ademais, vamos fazer uma analogia: vocês dizem que todo mundo quer casar, né? Vocês provavelmente também dizem que todo mundo gosta de arroz ou todo mundo gosta de sorvete. Pra provar que vocês estão enganados, eu vou fazer uma revelação chocante: eu odeio arroz e sorvete só como casquinha do McDonalds ou Haagen Dasz - e mesmo assim em doses homeopáticas. Então, porque uma pessoa que não curte arroz nem sorvete não pode não curtir a idéia de dividir sua casa e seu espaço com outra pessoa? Ou de se reproduzir? Sei lá, o mundo já tem gente demais, eu tenho horror a mulher grávida (culpa de ter tido mãe obstetra que dava o telefone de casa pras pacientes) e não tenho muito saco com criancinhas.

Acho ótimo ter amigos que tenham filhos - dá pra você pegar no colo, achar cuti-cuti e quando a criancinha começar a chorar, devolvê-la a seus genitores para darem um jeito. Criança chorando é uma coisa que me irrita profundamente - deve ser porque eu nunca fui das dez mais choronas. “Ah, você não imagina como é gostoso ser mãe!”. Sei lá. A idéia de limpar fraldas, levar ao pediatra, passar um ano sem dormir direito, vigiar notas na escola e outras tantas implicações da maternidade não me parecem assim tão agradáveis. Não tenho vontade de passar por nada disso. Não posso ter opinião própria? Gente chata.

O casamento então parece ser mais chocante. “Deve ser porque você não encontrou o grande amor da sua vida”. Olha, se for por isso eu vou continuar solteira para todo o sempre, simplesmente porque não acredito na existência de uma “cara-metade” ou “grande amor da minha vida”. Acho que a expectativa de vida de um ser humano é muito longa pra gente achar que só se ama “de verdade” uma vez em todos esses anos. E amar nada tem a ver com “desejo de dividir a mesma casa”, né? Primeiro que a instituição do “casamento com amor” é uma coisa beeeem recente. O casamento originalmente tava mais pra um contrato de cessão/partilha de bens do que para uma prova de amor. Segundo que eu acho absolutamente normal você amar alguém e nem por isso querer dividir o seu varal com roupas do seu ser amado. Eu moro sozinha há dois anos e meio e ADORO chegar em casa e só encontrar gatos. Tem noites que eu quero dormir sozinha esparramada na cama, tem noites que eu quero passar acordada na frente do computador ou lendo alguma coisa - e para isso luz acesa cai muito bem. São coisas que são mais complicadas de se fazer quando você co-habita com alguém. Eu NEM SEMPRE tenho vontade de ver meu namorado todos os dias - essa semana, por exemplo, eu passei extremamente gripada e queria ficar na minha, embaixo do edredom. Morando na mesma casa que ele, eu seria obrigada a dividir o edredom ou, caso houvessem dois quartos na casa, colidir com ele pelos ambientes de nosso localhost sweet localhost.

O que eu realmente não entendo é por que eu preciso sentir vontade de me casar e ter filhos igual a todo mundo. Porque eu preciso ser igual a todo mundo? Porque incomoda tanto eu não querer ser igual a todo mundo? Eu não sei se as pessoas sabem que cada ser humano é diferente do outro. DNA, e tal. Vai que no meu DNA tem uma sequencia qualquer que diz NÃO QUERO CASAR NEM ME REPRODUZIR!. Neguinho podia ser mais light com esses padrões, não? Ia ser melhor pra todo mundo, eu garanto.

Anencefalia

Tudo começou com o FZer0 me dizendo que tinha visto, na capa da Capricho desse mês, a frase “ela se achava muitA feia”. Eu precisava ver isso também, mas era de noite e a banca de jornal aqui em frente já estava fechada. Então, claro, entrei no site da Capricho. Onde não encontrei a foto da capa em tamanho legível, mas encontrei uma das coisas mais machistas que já li na minha vida. Era uma matéria sobre meninas que tomam a iniciativa, levaram uns moleques pra uma boate e depois perguntaram a opinião deles sobre o que aconteceu durante a noite. Resumidamente, a matéria ia desde a famosa frase “a garota tem que se valorizar” até um absurdo, um sujeito mandou um “Vai se foder” pra uma garota que deu em cima dele e ele achou feia. Horror total, quando eu lia Capricho, lá pelos meus 14 anos, ela não era troglodita a esse ponto. Fiquei tão chocada que escrevi um mega-discurso feminista hardcore pra redação da revista. Se vão publicar ou não, eu não faço idéia. Só sei que pelo menos um puxão de orelha aquela cambada de gente idiota precisava levar. E agora, com vocês, o incrível e-mail da anã ruiva e feminista. Tomem fôlego, porque é imenso. Eu já disse que sofro de uma certa verborragia?

“Como não encontrei outro e-mail de contato na home da capricho, estou mandando o email por aqui mesmo.

Fiquei horrorizada com a matéria “O que os meninos pensam sobre as
meninas que chegam junto”. Parece que fazem um teste para medir o
nível de machismo dos entrevistados antes de selecioná-los. Tudo bem
que exista muito homem machista no mundo, mas eu conheço tantos que não
são que é impossível que vocês não tenham encontrado um para pelo menos
fazer um contrapeso na matéria. Desse jeito, vocês estão fazendo uma
apologia velada ao preconceito sexual. Em 2003. Absolutamente patético.
E pensar que eu lia a Capricho quando tinha 15 anos, hoje em dia até
me envergonho de já haver dado dinheiro para a Abril sustentar esse
tipo de preconceito.

É no mínimo biologicamente justificável haver mulheres atirando-se em
cima dos homens: segundo o último censo, no Brasil existem 3 milhões
de mulheres a mais que o número de homens, sendo que nas áreas urbanas
essa diferença é acentuada e temos quase seis milhões de mulheres a
mais, sobrando, sem par numérico. Seis milhões. A atitude natural é ir
à caça, tentar vencer as adversárias e não ser uma das seis milhões sem
par. O que não é natural é saber que não existe homem para seis milhões
e ficar quieta rezando para não ser uma das desafortunadas.

Quanto à questão comportamental, eu questiono a maturidade e segurança
dos entrevistados: porque uma mulher que fica com todos é ruim? A
experiência no caso não deveria, pela lógica, fazê-la melhor? Quando
você atira em várias direções, as suas chances de acertar o alvo são
bem maiores do que se você desse um único tiro, por melhor que seja sua
mira. Quando você precisa de um emprego, não é normal mandar currículos
para todas as vagas que vê oferecidas? Porque então, na busca por um
parceiro, não se pode demonstrar disponibilidade para todos os
possíveis candidatos? “Ah, mas aí é diferente”, eles dirão. Diferente
porquê? Não adianta perguntar o motivo, na verdade. Todos darão
desculpas que um pouquinho de lógica consegue jogar por terra em menos
de cinco minutos. O problema é simples: o machismo esconde insegurança.
O homem que quer uma mulher tímida e inexperiente na verdade tem medo
de seu desempenho, teme que a mulher o compare com outros e teme ser
confrontado com a possibilidade de ter menos experiência que a parceira
e, por isso, não ser capaz de satisfazê-la. É muito mais sério que “se
dar ao valor” - frase que ouvem dos pais e repetem feito papagaios, sem
pensar no sentido real do que estão dizendo - e tem a ver com um
estímulo à imaturidade e insegurança. Um homem maduro e seguro de si
não terá nunca medo de uma mulher - ele tem consciência que experiência
é para ser aproveitada, não importa quem tenha mais.

Mas agora permita-me desenvolver a minha interpretação do que há por
trás da frase maldita, “se dar ao valor”. É, isso aí, a mulher tem que
se valorizar. Concordo plenamente. As mulheres têm que se valorizar,
têm que ser mais honestas consigo mesmas e com seus parceiros (e
candidatos a parceiros). Uma mulher que se interessa por um homem mas
não vai à luta por ele porque tem *medo* do que ele pode pensar a
respeito do seu caráter não é honesta consigo mesma, não é honesta com
o homem, está fingindo não ter vontade de se aproximar, cria uma
máscara por cima dos seus sentimentos. Essa mulher mentirosa, falsa,
desonesta, é que não se valoriza, que tem um caráter duvidoso e que não
merece ser levada a sério.

Só que, infelizmente, apoiando em coro os homens machistas, existem as
mulheres machistas - que são tão inseguras quanto os homens e têm medo
das concorrentes, não suportam a idéia de perder. Como evitar isso?
Simples, é só não atacar - a única maneira de não perder nunca é também
não jogar. Mas não são os animais que não vão à caça que morrem de
fome? O destino dessas mulheres é o mesmo: perder a caça para quem
a abateu primeiro.

Recentemente, divulgou-se em um jornal de grande circulação, uma
pesquisa que dizia que só as mulheres casadas são feministas,
insinuando que seria mais fácil defender o feminismo depois de
conseguir o homem desejado, mesmo que tenha sido necessário adotar
práticas machistas para consegui-lo. Eu encaro tal pesquisa de outra
maneira: só as mulheres feministas, que vão à luta e são autoconfiantes
são capazes de conseguir o homem desejado, o que significaria que as
tais seis milhões de mulheres na área urbana que “sobram” sejam
exclusivamente as mulheres machistas que ficam “se fazendo de difícil”,
enquanto as adversárias vão lutar pela preservação da espécie. Sim, no
fundo é tudo igualzinho ao Discovery Channel: no fundo é nosso instinto
animal buscando incessantemente a perpetuação da raça humana.

Pessoalmente, se eu for à caça e for recusada por ter feito isso, terá
sido uma recusa mútua: eu não me envolvo com homens fracos e inseguros,
e homens fracos e inseguros não se envolvem comigo. Não quero perpetuar
a espécie com os exemplares mais fracos do sexo masculino, o natural é
desejarmos o melhor para podermos gerar descendentes melhores. Mas,
ainda assim, acho deplorável ler numa revista com anos de estrada
matérias insinuando que todos os homens são machistas e que se as
mulheres os atacarem serão dispensadas. Os cinco moleques por vocês
entrevistados podem não ter a menor noção de teoria da preservação das
espécies e respeito pelo seu semelhante, mas isso de modo algum
significa que todos os outros garotos pensam assim ou que tal atitude é
a correta e aceitável. Não é nem correta e nem é aceitável - a própria
constituição diz que discriminação baseada no sexo, raça ou credo é
crime, e fazer apologias do tipo “menino pode mas menina não pode” é
discriminar baseado no sexo, portanto, é crime federal. Que coisa feia.

Por último, gostaria de dizer que este texto inflamado não vem de
nenhuma feminista coroa e mal amada: tenho 23 anos, tenho um namorado
fixo há três e quem tomou a iniciativa pra tudo no começo fui eu - e
foi exatamente por isso que ele se apaixonou por mim e não pelas
milhares de menininhas difíceis orbitando por aí. Mas nem sempre eu fui
assim, e já aconteceu, muitos anos atrás, de eu estar apaixonada e ter
perdido o homem desejado por medo de atacar - muito tempo depois, o
rapaz, hoje um grande amigo, me contou que não quis se envolver comigo
porque eu parecia insegura e havia uma outra interessada que fez o que
eu deveria ter feito: atacou e, obviamente, ganhou. E eu, boboca, perdi
sem nem haver tentado, mas pelo menos aprendi a lição. E quanto aos
homens que não gostam desse tipo de atitude, a experiência me diz uma
coisa: vários irão morder a língua ao descobrir como é bom envolver-se
com uma mulher segura, decidida e, principalmente, honesta. Porque
nenhum relacionamento que começa nessa enganação “quero mas digo que
não quero” pode ser um relacionamento honesto, certo?

Obrigada pela atenção, e espero que vocês publiquem pelo menos um
parágrafo da minha indignação na seção de cartas. Afinal, o feminismo
merecia o mesmo espaço que o machismo para compensar a injustiça. ”

Ponto de vista

Era uma vez um sujeito que não tinha namorada e vivia muito bem assim há vários anos. Até que um dia, ele conheceu uma garota teimosa, estressadinha, que falava pelos cotovelos, quase uma militante feminista, workaholic, racional demais para algumas coisas e passional demais para outras, dotada de um mau-humor quase garfieldiano, que detestava televisão e preferia comprar um computador novo a renovar o guarda-roupa. Por algum motivo obscuro, o sujeito achou que valia a pena namorar com a garota e assim o fez - já que ela estava inconformada porque não era lógico se apaixonar por um sujeito que conheceu há menos de uma semana e precisava tirar isso da cabeça - e, mesmo depois de três anos o sujeito continuava achando que fez um bom negócio em abdicar de sua solteirice pela garotinha do pavio curto.

Ela não entende muito bem o que ele acha de tão único e incrível nela, mas que bom que ele acha algo incrível assim. No final das contas, se ela acreditasse em príncipe encantado ou outras besteiras do mesmo tipo, diria que o havia encontrado: o tal sujeito está plenamente de acordo com seus padrões estéticos, gosta das mesmas coisas que ela, é quase tão feminista quanto ela e não é fachada, não quer casar que nem ela, detesta futebol e televisão e não é inseguro ou ciumento. Não é uma combinação que dê sopa por aí todo dia - e, embora tenha dado sopa por aí por alguns anos, nenhuma garotinha estressadinha passou na frente antes.

Claro, ela tem suas qualidades, mas algumas, dependendo do ponto de vista, podem até ser defeitos: é excessivamente honesta, não costuma se conformar quando as coisas não funcionam - procura resolver a origem do problema antes de dizer que ‘não dá’ - e corre atrás do que quer com a insistencia de um gato atrás de uma bolinha de papel. Também só admite ser contrariada se o ‘contrariador’ tiver um bom argumento - e haja saco para debatê-lo, ela parece ter obsessão com a expressão ‘Mas porque?’, mas sabe admitir que errou quando lhe provamo erro por a+b. Sonha com a paz mundial - apesar de ter consciência que é só sonho e olhe lá - quase como aqueles malucos que defendiam o socialismo utópico - os ricos se conscientizando que precisavam compartilhar a riqueza com os pobres. É uma pessoa incomum, sem dúvida. Deve ser por isso que o tal sujeito gostou tanto, sei lá. O fato é que ela acha ótimo o sujeito gostar dela (e começa a tocar Kenny G no rádio enquanto acendem a luz negra do teto) exatamente do jeito que ela é e também gosta dele (agora uma música da Celine Hedionda) exatamente por ele ser do jeito que é e se interessar por mulheres incomuns, feito ela. Muita gente pergunta porque eles não se casam, mas já dizia o velho ditado: em time que está ganhando não se mexe. Se está bom assim, cada um no seu canto, porque mudar? (ela e sua mania de porques, tsc…)

Se vale a pena, se é uma boa escolha, ou se é a sorte grande, é só uma questão de ponto de vista. O que importa é que, para as partes envolvidas, está ótimo exatamente do jeito que está, há três anos, e não se fala mais nisso. Como todo aniversário merece uma comemoração, hoje não poderia ser diferente e eles realmente merecem uma em grande estilo. Mas não ouse falar em ‘cara-metade’ ou ‘grande amor da sua vida’ com eles sob risco de apanhar - lembrem-se que ela, como toda baixinha, é abusada - ou pelo menos ouvir um discurso pseudo-sociológico sobre a relação entre os contos de fadas e a cultura do ‘até que a morte os separe’ imposta pela Igreja Católica ao longo dos séculos. Mas não é por mal, ela jura. É só o seu ponto de vista sobre como ser feliz e amar (cenário: rodinha de violão no grêmio do colégio) as pessoas como se não houvesse amanhã.

Agora, apaguem as luzes, acendam o néon, caprichem no gelo seco e esqueçam as convenções, porque o amor é, antes de tudo, brega por definição.

(Alguém pode tirar o CD do Kenny G, por favor? Já chega, era só pra dar um clima. Romântico é Lamb e não tem pra ninguém.)

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