Tudo começou com o FZer0 me dizendo que tinha visto, na capa da Capricho desse mês, a frase “ela se achava muitA feia”. Eu precisava ver isso também, mas era de noite e a banca de jornal aqui em frente já estava fechada. Então, claro, entrei no site da Capricho. Onde não encontrei a foto da capa em tamanho legível, mas encontrei uma das coisas mais machistas que já li na minha vida. Era uma matéria sobre meninas que tomam a iniciativa, levaram uns moleques pra uma boate e depois perguntaram a opinião deles sobre o que aconteceu durante a noite. Resumidamente, a matéria ia desde a famosa frase “a garota tem que se valorizar” até um absurdo, um sujeito mandou um “Vai se foder” pra uma garota que deu em cima dele e ele achou feia. Horror total, quando eu lia Capricho, lá pelos meus 14 anos, ela não era troglodita a esse ponto. Fiquei tão chocada que escrevi um mega-discurso feminista hardcore pra redação da revista. Se vão publicar ou não, eu não faço idéia. Só sei que pelo menos um puxão de orelha aquela cambada de gente idiota precisava levar. E agora, com vocês, o incrível e-mail da anã ruiva e feminista. Tomem fôlego, porque é imenso. Eu já disse que sofro de uma certa verborragia?
“Como não encontrei outro e-mail de contato na home da capricho, estou mandando o email por aqui mesmo.
Fiquei horrorizada com a matéria “O que os meninos pensam sobre as
meninas que chegam junto”. Parece que fazem um teste para medir o
nível de machismo dos entrevistados antes de selecioná-los. Tudo bem
que exista muito homem machista no mundo, mas eu conheço tantos que não
são que é impossível que vocês não tenham encontrado um para pelo menos
fazer um contrapeso na matéria. Desse jeito, vocês estão fazendo uma
apologia velada ao preconceito sexual. Em 2003. Absolutamente patético.
E pensar que eu lia a Capricho quando tinha 15 anos, hoje em dia até
me envergonho de já haver dado dinheiro para a Abril sustentar esse
tipo de preconceito.
É no mínimo biologicamente justificável haver mulheres atirando-se em
cima dos homens: segundo o último censo, no Brasil existem 3 milhões
de mulheres a mais que o número de homens, sendo que nas áreas urbanas
essa diferença é acentuada e temos quase seis milhões de mulheres a
mais, sobrando, sem par numérico. Seis milhões. A atitude natural é ir
à caça, tentar vencer as adversárias e não ser uma das seis milhões sem
par. O que não é natural é saber que não existe homem para seis milhões
e ficar quieta rezando para não ser uma das desafortunadas.
Quanto à questão comportamental, eu questiono a maturidade e segurança
dos entrevistados: porque uma mulher que fica com todos é ruim? A
experiência no caso não deveria, pela lógica, fazê-la melhor? Quando
você atira em várias direções, as suas chances de acertar o alvo são
bem maiores do que se você desse um único tiro, por melhor que seja sua
mira. Quando você precisa de um emprego, não é normal mandar currículos
para todas as vagas que vê oferecidas? Porque então, na busca por um
parceiro, não se pode demonstrar disponibilidade para todos os
possíveis candidatos? “Ah, mas aí é diferente”, eles dirão. Diferente
porquê? Não adianta perguntar o motivo, na verdade. Todos darão
desculpas que um pouquinho de lógica consegue jogar por terra em menos
de cinco minutos. O problema é simples: o machismo esconde insegurança.
O homem que quer uma mulher tímida e inexperiente na verdade tem medo
de seu desempenho, teme que a mulher o compare com outros e teme ser
confrontado com a possibilidade de ter menos experiência que a parceira
e, por isso, não ser capaz de satisfazê-la. É muito mais sério que “se
dar ao valor” - frase que ouvem dos pais e repetem feito papagaios, sem
pensar no sentido real do que estão dizendo - e tem a ver com um
estímulo à imaturidade e insegurança. Um homem maduro e seguro de si
não terá nunca medo de uma mulher - ele tem consciência que experiência
é para ser aproveitada, não importa quem tenha mais.
Mas agora permita-me desenvolver a minha interpretação do que há por
trás da frase maldita, “se dar ao valor”. É, isso aí, a mulher tem que
se valorizar. Concordo plenamente. As mulheres têm que se valorizar,
têm que ser mais honestas consigo mesmas e com seus parceiros (e
candidatos a parceiros). Uma mulher que se interessa por um homem mas
não vai à luta por ele porque tem *medo* do que ele pode pensar a
respeito do seu caráter não é honesta consigo mesma, não é honesta com
o homem, está fingindo não ter vontade de se aproximar, cria uma
máscara por cima dos seus sentimentos. Essa mulher mentirosa, falsa,
desonesta, é que não se valoriza, que tem um caráter duvidoso e que não
merece ser levada a sério.
Só que, infelizmente, apoiando em coro os homens machistas, existem as
mulheres machistas - que são tão inseguras quanto os homens e têm medo
das concorrentes, não suportam a idéia de perder. Como evitar isso?
Simples, é só não atacar - a única maneira de não perder nunca é também
não jogar. Mas não são os animais que não vão à caça que morrem de
fome? O destino dessas mulheres é o mesmo: perder a caça para quem
a abateu primeiro.
Recentemente, divulgou-se em um jornal de grande circulação, uma
pesquisa que dizia que só as mulheres casadas são feministas,
insinuando que seria mais fácil defender o feminismo depois de
conseguir o homem desejado, mesmo que tenha sido necessário adotar
práticas machistas para consegui-lo. Eu encaro tal pesquisa de outra
maneira: só as mulheres feministas, que vão à luta e são autoconfiantes
são capazes de conseguir o homem desejado, o que significaria que as
tais seis milhões de mulheres na área urbana que “sobram” sejam
exclusivamente as mulheres machistas que ficam “se fazendo de difícil”,
enquanto as adversárias vão lutar pela preservação da espécie. Sim, no
fundo é tudo igualzinho ao Discovery Channel: no fundo é nosso instinto
animal buscando incessantemente a perpetuação da raça humana.
Pessoalmente, se eu for à caça e for recusada por ter feito isso, terá
sido uma recusa mútua: eu não me envolvo com homens fracos e inseguros,
e homens fracos e inseguros não se envolvem comigo. Não quero perpetuar
a espécie com os exemplares mais fracos do sexo masculino, o natural é
desejarmos o melhor para podermos gerar descendentes melhores. Mas,
ainda assim, acho deplorável ler numa revista com anos de estrada
matérias insinuando que todos os homens são machistas e que se as
mulheres os atacarem serão dispensadas. Os cinco moleques por vocês
entrevistados podem não ter a menor noção de teoria da preservação das
espécies e respeito pelo seu semelhante, mas isso de modo algum
significa que todos os outros garotos pensam assim ou que tal atitude é
a correta e aceitável. Não é nem correta e nem é aceitável - a própria
constituição diz que discriminação baseada no sexo, raça ou credo é
crime, e fazer apologias do tipo “menino pode mas menina não pode” é
discriminar baseado no sexo, portanto, é crime federal. Que coisa feia.
Por último, gostaria de dizer que este texto inflamado não vem de
nenhuma feminista coroa e mal amada: tenho 23 anos, tenho um namorado
fixo há três e quem tomou a iniciativa pra tudo no começo fui eu - e
foi exatamente por isso que ele se apaixonou por mim e não pelas
milhares de menininhas difíceis orbitando por aí. Mas nem sempre eu fui
assim, e já aconteceu, muitos anos atrás, de eu estar apaixonada e ter
perdido o homem desejado por medo de atacar - muito tempo depois, o
rapaz, hoje um grande amigo, me contou que não quis se envolver comigo
porque eu parecia insegura e havia uma outra interessada que fez o que
eu deveria ter feito: atacou e, obviamente, ganhou. E eu, boboca, perdi
sem nem haver tentado, mas pelo menos aprendi a lição. E quanto aos
homens que não gostam desse tipo de atitude, a experiência me diz uma
coisa: vários irão morder a língua ao descobrir como é bom envolver-se
com uma mulher segura, decidida e, principalmente, honesta. Porque
nenhum relacionamento que começa nessa enganação “quero mas digo que
não quero” pode ser um relacionamento honesto, certo?
Obrigada pela atenção, e espero que vocês publiquem pelo menos um
parágrafo da minha indignação na seção de cartas. Afinal, o feminismo
merecia o mesmo espaço que o machismo para compensar a injustiça. ”
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