Uma breve pausa nos posts em inglês porque esse é dedicado aos meus amigos que moram no Brasil. Volta e meia me perguntam o que eu acho do Canadá, se eu pretendo voltar pro Brasil algum dia ou quando eu vou visitar.
Não tenho A MENOR IDÉIA de quando eu vou visitar porque eu sinto falta das pessoas mas não tenho a menor vontade de ver o Brasil de novo. Eu não pretendo voltar a morar no Brasil DE JEITO NENHUM, Toronto é a melhor cidade em que já vivi na minha vida, e se eu fosse obrigada a escolher outra cidade pra viver, ia pra Montréal (tomar vergonha na cara e aprender a falar francês direito).
O exemplo mais simples que uso de “MAS POR QUE VOCÊ NÃO QUER VER O BRASIL NEM PINTADO”, é a sensação de segurança que se tem vivendo no Canadá. Não existe nada similar no Brasil. Em 2011 a cidade registrou 44 homicídios – cerca de 0.8 por 100 mil habitantes, a mais baixa em quase 20 anos – e a gente tem vontade de chorar se comparar isso com o Rio – 30 por 100 mil, também “a mais baixa em 20 anos”, sério gente? – ou qualquer outra cidade grande brasileira.
Ao mesmo tempo, eu vivo numa cidade de tamanho decente (não é aquela coisa enorme que é São Paulo), que eu consigo atravessar de bicicleta sem perder uma perna ou um braço no caminho (apesar no nosso prefeito ser um idiota e odiar ciclistas), que, por incrível que pareça, é muito mais arborizada que o Rio – vocês precisam ver o TAMANHO DO PARQUE que fica em frente à minha casa – e ainda assim é “a maior cidade do Canadá”, tipo São Paulo daqui. Só existem prédios enormes mesmo no centro, aqui onde eu moro tem poucos (felizmente). Dessa forma, da minha janela eu consigo ver tanto o parque quanto o lago, já que 80% da vizinhança é de casas antigas. O lado ruim disso é que comprar uma casa é bem caro – imagine algo com três, quatro quartos, sótão, porão, quintal, jardim, etc. Coisa de meio milhão pra cima. É possível, no entanto, achar casas/apartamentos mais baratos em outros pontos da cidade.
Eu falei sobre pedalar. Eu não dirijo, não sei dirigir, não me *interesso* por carros, Fabio até sabe mas não tem vontade de ter um carro (e olha que eles são ridiculamente baratos aqui, um Corolla básico começa em 16 mil dólares) e existem diversas opções de car sharing se você não quiser comprar um. Mas, honestamente, o TTC é meu melhor amigo no inverno e dá conta do recado.
O TTC, minha gente, em nada se parece com nenhum sistema de transporte público que já utilizei no Brasil. Quando cheguei aqui enviei uma carta com meus dados pra eles e conta pra débito e me inscrevi num plano de passe mensal. Recebo um cartão em casa todo mês, e esse cartão me dá direito a viagens ilimitadas de ônibus, bonde e metrô pela cidade. Isso me custa mais ou menos 100 dólares. As linhas são bem integradas e é possível saber quanto tempo demora o próximo metrô através de monitores nas estações, ou o próximo bonde através de mensagem de texto (tem uns apps pra celular também). Sim, atrasa, não, não é perfeito. Mas NUNCA levei 2 horas para cobrir 2km (lembranças de São Paulo), e o mapa de trânsito daqui FAZ SENTIDO (a pessoa que criou as linhas cariocas deve ter tomado muitas DORGAS, MANO).
O Brasil se acha muito multicultural, muito avançado e muito tolerante, mas é justamente o oposto. Eu gosto *muito* de viver num lugar onde as pessoas compreendem que abortos (legalizados há mais de 30 anos, feitos de graça pelo sistema de saúde pública) e casamentos entre pessoas do mesmo sexo (legalizados há quase 10) não destroem famílias, elas continuam indo ao parque brincar felizes aos domingos. Não se encontra um quinto da diversidade de gente no Brasil que você vê no metrô aqui. Em menos de dois anos em Toronto, eu tive a oportunidade de aprender palavras em mandarim, coreano, russo, ucraniano (eu moro no bairro ucraniano), e provar comidas dos lugares mais distantes sem sair da cidade – já provou comida etíope? Deveria, você não usa talheres e passa a tarde inteira comendo, termina com um café excelente! E, se bateu preguiça, um disk-thai food sempre resolve, é barato e muito gostoso!
Tenho amigos que nasceram tanto no Canadá quanto na Coréia, passando por Irã, Hong Kong… a lista não acaba e sempre você conhece alguém de algum lugar diferente. Dizem que 50% da população de Toronto não nasceu aqui e eu tendo a acreditar, pelas línguas estranhas que ouço no metrô. Tem *bastante* portugueses – de Portugal e Açores – e Little Portugal é um dos meus bairros favoritos, claro, pela boa comida!
Eu sei que EXISTEM problemas no Canadá – o Stephen Harper é um idiota que quer que sejamos um país tão tosco quanto os EUA, nosso querido prefeito de Toronto, então, melhor nem começar – mas se eu for comparar os “problemas canadenses” com “problemas brasileiros”, me desculpem, eu vou ter um acesso de riso. É assim que eu me sinto cada vez que me perguntam se eu vou voltar para o Brasil. Pra quê? Eu quero mais é que as pessoas de quem eu gosto venham pra cá – e levem uma vida melhor.
Ah, e o inverno? Bem, tem essa lenda, né? É 24 de dezembro e nem sinal de neve. No Canadá. Tô dizendo…